cinema, crônica

mentirinha

 

mentirinha

 

“Amor e outras Drogas” é uma história de amor cujo o pano de fundo são as práticas nada ortodoxas da indústria farmacêutica. Tem como protagonistas Anne Hathaway e Jake Gyllenhaal. Ele é um representante comercial do laboratório Pzifer e pega geral. Sua personalidade sedutora se abala quando ele conhece Hathaway, artista plástica e garçonete acometida pelo mal de parkinson. Em função da doença, ela vive cada dia como se fosse o último e os dois começam uma relação intensa baseada em sexo. Mas ele se apaixona por ela, o sentimento é recíproco, mas ela prefere rejeitá-lo de medo que a abandone em função da doença. A conturbada relação entre os dois transcorre paralelamente a ascensão profissional de Gylenhaal. Ele aproveita da sua fama de sedutor e se torna um exímio vendedor de um então inédito medicamento chamado Viagra. Em uma cena no meio do filme, ele liga para sua mãe e conta que conseguiu fazer os médicos prescreverem 2000 caixas, quando na verdade foram 1200 (ou uma diferença do tipo). Ela ouve a conversa e o questiona a respeito desta mentirinha.

Mentirinhas são comuns, né? A mentirinha serve para fortalecer opinião, ideia, a sensualidade e o currículo. Raramente um interlocutor pedirá justificativas sobre quais são os fatos singulares compõe o surperlativo empregado. Aquele curso livre de uma semana em uma instituição consagrada se torna uma formação parruda. O estágio de poucos meses se torna um emprego de anos. “Depois de uma vivência em Londres” (ou em outra cidade de primeiro mundo), não importa em que termos é uma frase comumente usada para carimbar o status de “cool” e confiável em um jovem profissional, por exemplo. Advérbios de intensidade costumam ser empregados nas mentirinhas. Exemplo: “meu filme foi selecionado para muitos festivais”, não importando quantos e qual a relevância deles. Outra mentirinha bem comum é potencializar a agenda de contatos, baseando-se naquele “oi” em um evento. Para quem isso tudo está parecendo vago professor Don Draper ensina em oito temporadas de Mad Men.

Mentirinhas podem ser benéficas e inocentes. Animam as conversas e podem inclusive ajudar no início de carreira quando ainda não há experiência para comprovar. O escritor Neil Gaiman confessou tal estratégia neste discurso como paraninfo aos alunos da Universidade da Filadélfia. Mas como mentira tem perna curta, certamente ela não se sustentará por muito tempo se o talento e a dedicação não forem intrínsecos – como foi seu caso.

As redes sociais fizeram da mentirinha uma tendência e porque não uma profissão. Mentirinhas (sem ironia) podem ser entretenimento. A ficção, afinal, também é feita de mentirinhas conduzidas com responsabilidade.

Cada ser humano portador de um smartphone é um potencial difusor de conteúdo e de mentirinhas. Vale o dito ou o postado. A manchete (só), a foto do instagram podem ser mentirinhas e elas podem se conservar por gerações se não forem questionadas. Alguns nomes são eleitos e proliferados, às vezes sem critério. Estampam artigos de revistas, revelam seu estilo de vida -no mundo das criatividades acontece muito. O hype é aceito sem a checagem da qualidade do trabalho ou de sua relevância para o mundo.

Como a quantidade e a rotatividade de informação são enormes, não sobra muito tempo para checar a veracidade dos fatos. E o mais alarmante, talvez não haja muito interesse em confirmações. A timeline do facebook está restrita às próprias preferências e interesses. Quem é de direita só vê conteúdo de direita, e quem é de esquerda idem – e perpetua-se a zona de conforto ideológico. As redes sociais tem um pouco daquele laser paralisante típico dos vilões de desenho animado, aqueles que querem “dominar o mundo”.

Na era do “pós-verdade” ou das “fake news”, as mentirinhas parecem uma espécie de estratégia e vêm se mostrando um tanto nocivas. Podem se tornar grandes dogmas, como aconteceu na última eleição americana com a vitória de D. Trump e sua campanha calcada em palavras de ordem e propostas vagas (na política brasileira a mentirinha é status quo). Se espremer os discursos de Trump fica só o bagaço. “Make America Great Again” (fazer a América Grande Novamente) significa voltar ao auge do país – os anos 1950. Ou seja, sua promessa de campanha era voltar ao passado. Marine Le Pen na França vai pelo mesmo caminho. Seu discurso exalta um nacionalismo retrô e conforta o narcisismo daqueles confusos e certamente amedrontados pela nova e ainda nebulosa ordem mundial. O medo paralisa. A tendência da mentirinha atingiu seu ápice.

O jornalismo anda um pouco sem credibilidade. Ele teve que adequar o número de notícias ao ritmo dos cliques e aos likes. O resultado é desastroso. Basta lembrar o episódio do Catraca Livre no trágico acidente com o avião da Chapecoense. A apuração adequada de um fato pode levar até anos e o empenho de uma grande equipe, como muito bem mostrou o filme “Spotlight”.

Sendo um pouco otimista, já há pequenos indícios de declínio da tendência da mentirinha. Um episódio recente serve como sinalizador. Lembra do episódio com a Bel Pesce? Ela se fez como palestrante empreendedora, mas alguns de seus feitos foram desmentidos. Ela confessou ter aumentado bastante. No discurso citado acima, o mesmo Neil Gaiman alertou que só mentiu porque solidificou sua carreira em um mundo pré-internet.

Dá para tentar se proteger. O site de notícias Lupa tem a premissa do fact-checking – que apura cada palavra dita e este artigo é bem didático: “Como identificar a veracidade de uma informação e não espalhar boatos”. O antídoto sempre vem do próprio veneno.

E sobre o filme, o personagem de Jake Gyllenhaal fica desconcertado com o questionamento de Anne Hathaway. Ele confessa sua insegurança e percebe que a auto-confiança era sustentada pelo único pilar da sedução. A história toma um novo rumo.

crônica, fotografia, história, livro

natureza

O blog completa 11 anos neste mês (dia 17 de janeiro). Ele é capricorniano, mas como o ascendente é o Sagitário da autora, ele sempre foi inquieto, avesso a rótulos e a regras. Para comemorar o aniversário fiz este texto fragmentando.

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prólogo
O encontro com uma árvore chamada Samaúma aconteceu no final de 2014 quando conheci Alter do Chão (PA). Me impactou muito. Foi a minha primeira (e ainda única) vez na Amazônia. A exuberância do verde e dos rios, pelo conjunto da obra, tomou de assalto o topo da lista de lugares mais lindos que visitei. O contato com o floresta teve digestão prolongada e me contaminou com a bactéria da curiosidade em entender o papel de um mero ser humano urbanóide e, ao mesmo tempo, sua responsabilidade em meio a exuberância da natureza.  Liguei a antena para os temas relatados a seguir.

Raízes da Samaúma/ Araquém Alcântara©

árvore
Para abraçar o tronco de uma Samaúma é preciso fazer uma ciranda com umas 30 pessoas. A espécie ocorre nas florestas tropicais e é considerada sagrada pelos povos nativos. Os Maias foram um deles. Eles acreditavam que suas longas (chegam a ter 300 m de extensão) e profundas raízes permitiam a comunicação com o mundo dos mortos. Já sua copa imponente (de altura equivalente a um prédio de 20 andares) era a “escada para o céu”. Nos dias de hoje ela é apelidada de “telefone de índio” – o eco produzido por golpes de madeira em suas raízes ecoam num raio de 1 km e facilitam a localização. Também funciona como um GPS da mata- servindo de ponto de referência para os barqueiros nos rios amazônicos – as estradas da região.

O título de “Rainha da Floresta” não é por acaso. Caprichosa, até atingir sua plenitude ela enfrenta muitos desafios. Seu florescimento é irregular. Pode demorar até sete anos* e ela depende da colaboração de outras espécies para se reproduzir. Floresce somente durante a noite e sua flor tem a cor branca para atrair os morcegos. Enquanto eles se lambuzam com o néctar da flor, vão sujando as asas com o pólen e o transportam até uma outra Samaúma. Assim as duas árvores polinizam e geram os frutos, um algodãozinho, com as sementes. Já crescida, a árvore se torna o lar para ninhos de passarinhos, formigueiros, fungos, chancelando assim outros apelidos milenares: “mãe da floresta” ou “mãe da humanidade”. Responsa.

O desmatamento na Amazônia aumenta a distância entre as Samaúmas. Os morcegos ficam com preguiça de voar tanto. A polinização da árvore fica comprometida e o ecossistema por ela provido também.

ciência
Há uns dois meses atrás meu pai me emprestou o livro “A Vingança de Gaia”. O autor é o cientista inglês James Lovelock, responsável pela “Teoria ou Hipótese da Gaia”. Neste livro ele discorre sobre a soberania da Natureza em relação a ação humana e sobre as consequências inevitáveis de mudança climática.

Gaia, na mitologia grega é a mãe da Terra (para quem não tem muita paciência para encarar um texto científico, indico este texto aqui – em tempo, estou a anos luz de entender de ciência com profundidade, o que importa aqui é a essência da ideia). Lovelock enxerga o Planeta Terra como um organismo único, um sistema auto-regulador – como o nosso corpo.

A priori sua teoria não foi levada a sério. Nos anos 1960, ele a apresentou à NASA. A comunidade científica considerava seus argumentos pouco contundentes. Aí entrou na jogada a bióloga Lynn Margulis (dica da Rita Wu). Ela o ajudou a respaldar sua teoria com comprovações científicas.

Margulis (1938-2011) é autora da teoria da simbiogênese (pode ser lida no livro “O Planeta Simbiótico”). Também muuuuito a grosso modo, é um projeto evolucionista que, de certa forma, se contrapõe a teoria evolutiva mais conhecida, a de Charles Darwin. Pesquisando células pré-históricas, ela descobriu que a mitocôndria (o “pulmãozinho” de cada uma de nossas células) é resultado da ação de bactérias. Ou seja, desde os primórdios  da formação da vida, momento os organismos precisam cooperar entre si para existir. Moral da história: ela aposta na colaboração entre as espécies e não na competição entre elas, como prega Darwinismo (uma visão mais feminina da evolução, né?)

Tanto a Simbiogênese quanto a Hipótese de Gaia não são unanimidade na comunidade científica, mas tendo em vista a assombração do aquecimento global, se apresentam como um partido de oposição.

índios
Esteve em cartaz em São Paulo uma exposição no SESC Pinheiros chamada “Adornos do Brasil Indígena: resistências contemporâneas”, a mostra revelava peças e fotos dos belíssimos “acessórios” usados por diversas tribos brasileiras. Cada adorno tem uma simbologia. A pintura corporal, por exemplo, funciona como uma espécie de RG para membro da tribo. Os acessórios com plumas podem representar uma escala hierárquica.

As analogias com os hábitos ocidentais brasileiros são enormes e sugerem a origem da notória preocupação com a vaidade enraizada na cultura nacional (além, claro, do costume de gostar de tomar banho diariamente ;). A exposição no SESC aponta um zeitgeist. A cultura indígena  vem despertando interesse de muitos artistas contemporâneos e foi citada no relatório de tendências do WGSN na apresentação do bureau durante o SPFW em novembro. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, ganha holofote nos meios mais intelectualizados. Em seu livro mais conhecido “A Inconstância da Alma Selvagem” (Cosac Naify, 2002) ele descreve a dinâmica e as simbologias das tribos que pesquisa. Em algumas línguas indígenas não há distinção de gênero, ou seja, a denominação para homem e mulher é a única. A contagem de tempo é outro advento do “homem branco”, na tribo importa a incidência da luz do Sol e as lunações. Os índios estão absolutamente integrados com os processos da natureza, e por isso respeitam profundamente os tempos do próprio corpo, tipo necessidade de sono ou descanso.

O avanço do agronegócio no país ameaça profundamente a demarcação das terras indígenas. O desmatamento e o contato com a civilização traz problemas inéditos aos índios. As doenças e a escassez de alimentos os insere a força na economia “civilizada” e os leva automaticamente à pobreza.

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epílogo
O contato com a natureza in loco dá aquela pontada nos genes. O inconsciente sussurra: “aí tem um pouco de você”.

design, entrevista

afeto

“É o momento de questionar os nossos modos de produção”…

 

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… Este é o propósito do Trama Afetiva idealizado por Jackson Araújo, o autor das aspas acima. O projeto aconteceu ao longo de duas semanas no Galpão Rosenbaum em São Paulo e consistiu em um conjunto de atividades: painel de estudos, imersão criativa, oficinas de produção e exposição final dos trabalhos. Entre as 340 inscrições, 14 portfólios foram selecionados. Ao longo do processo os participantes receberam orientação do próprio Jackson, do estilista Alexandre Herchcovitch e dos designers Marcelo Rosenbaum e Patrícia Centurion.

A Fundação Herman Hering, braço social da marca de roupas Hering, bancou a empreitada. Nas oficinas os participantes tinham a missão de criar a partir dos resíduos têxteis da empresa – técnica de design conhecida como upcycling.

Upcycling é uma evolução da reciclagem tradicional – o “downcycling”. O “up” se deve ao aumento de valor agregado adquirido pelo material após a intervenção criativa. 

As integrantes da ONG Cardume de Mães, localizada no Campo Limpo em São Paulo, ampararam os participantes nos mistérios da máquina de costura. Os trabalhos deram vida a uma exposição que pontuou o encerramento da edição de estreia do projeto. No facebook do Trama Afetiva tem os registros dos encontros e o processo de criação das peças expostas. Algumas delas poderão ser produzidos em série limitada.

Casca: A série de produtos da TRAMA AFETIVA

 

emoção
Jackson Araújo é partidário da “economia afetiva”. Ele cunhou o termo em 2014 e desde então o utiliza como norte para seus projetos e consultorias. “É construir um novo tecido social. Mais humano. Mais integrado. Permeado pelo amor ao próximo e ao mundo. Estamos vivendo a era interdependência e da horizontalidade. Não podemos mais fazer as coisas sozinhos. Temos que fazer com os outros e para os outros. Assim, todo mundo ganha, principalmente o meio ambiente”.

“Entre os inscritos havia uma dentista”, relembra. “Estamos falando de moda e design, mas a necessidade de mudança nos processos pode ser aplicado a qualquer área. As escolas precisam mudar o jeito de ensinar”. A vivencia com os participantes só confirmou uma suspeita do idealizador do projeto. Tanto os modelos tradicionais  de trabalho, quanto as metodologias de ensino nas escolas e universidades não suprem mais os anseios das pessoas.

Também vale a pena ler este texto no ModeFica sobre o Jackson e o Trama Afetiva.

educação
Andou circulando pelas redes sociais a notícia que a Finlândia seria o primeiro país a extinguir a divisão de disciplinas na grade escolar. Por lá foi inaugurada uma instituição de ensino vanguardista apelidada de “escola do futuro”.

Há uma lacuna geracional nos métodos de ensino, acentuada pela perspectiva incerta de dias vindouros em meio a atual crise econômica.  A pauta está nas reivindicações dos secundaristas que ocupam as escolas pelo Brasil. Um aluno curioso pode ter mais informação do que seu professor. Cabe então a este ser uma espécie de “curador” de informações e ajudar seu pupilo a separar o joio do trigo e a formar sua consciência crítica.

renovação
Recentemente li o livro Cradle to Cradle (significa do “berço ao berço”). É um tratado sobre ecoefetividade (não afetividade ;). Ele foi escrito em 2002 pelos arquitetos Michael Braungart e Willian McDonough. A dupla comanda uma consultoria que ajuda as empresas a reverem o modus operandi. Os dois visam zerar os impactos ambientais construindo uma linha de produção com materiais que possam ser 100% reaproveitados, pensando na lógica do upcycling. Entre os seus clientes estão a montadora Ford e a empresa de design Herman Miller. É o contraponto da lógica “cradle to grave” (do berço à cova) praticada pelas indústrias desde a Revolução Industrial no Século XVII. Este vídeo explica a diferença:

Os dois pregam a responsabilidade intergeracional, ou seja, deixar o mundo melhor para as crianças de hoje. E citando Albert Einstein, estimulam: “se queremos resolver os problemas que nos afligem, nosso pensamento deve evoluir além do nível que tinha quando criamos esses problemas”. Hoje nossos problemas parecem ser 2.0. Outras tantas camadas acumularam-se sorrateiramente ao longo dos anos que fica difícil cortar o mal pela raiz.

Então, daqui para frente a fica dica do idealizador do Trama Afetiva: “o desafio é construir um mundo que ainda não existe”. Com afeto.